Cheiro de “coisa boa”

Como um bom hábito da minha vida um conjunto de bons acordes para te acompanhar na história: dodie – Sick of Losing Soulmates & Anne Murray – Could I Have This Dance

Milagres do final de semana: ainda jogado na cama o olho foi pela janela para ter uma ideia da posição do sol, dava para ter uma noção que o meio dia ainda não havia chegado, mas se aproximava.

Se dependesse da minha vontade com toda certeza continuaria morgado no colchão, mas como mais de um estômago dependia das minhas façanhas juntei algumas forças e me esgueirando entre as “amarras” saí da cama e do quarto para o caminho da cozinha.

Conhecendo-me, não é difícil intuir a primeira coisa que fiz. Assim, não tardou para que o odor daquele sumo negro e espesso tomasse conta de todos os cantos da casa; penetrando até no quarto, onde a porta ficara entreaberta.

Depois do essencial, vinha o importante: o almoço para manter os dois seres em pé. Por isso, eu que nunca fui exemplo de planejamento, olhava para o interior da geladeira como quem assistia à televisão. Percorria com os olhos as prateleiras do eletrodoméstico, procurando o que poderia ser usado e já separando o que julgava útil. Antes da próxima etapa: uma garrafa de vinho do armário para as prateleiras geladas.

Tudo nos balcões da cozinha e a mágica começa: corta aqui e acolá, panelas postas sobre o fogão, tempero nos mariscos que achei, massas ao cozimento e uma caneca fumegante sempre ao meu alcance.

O esmero era natural. Podia não ter ideia do resultado que conseguiria, mas deixei meu paladar guiar: “eu gosto disso aqui” ou “huum, isso aqui fica bom demais.”

Aos poucos, outro cheiro criou-se em casa; cheiro “de comida”, “de coisa boa”; e misturado ao do café arrebatou todo e qualquer sentido que ainda estivesse adormecido pelos cômodos, seduzindo-os para aquele cantinho onde me empenhava.

Quando conhecemos a casa em que vivemos, quando a relação entre morada e morador é maior do que apenas “habitar”, cada passo gera um som característico, cada porta abre no seu próprio timbre e cada pessoa gera sua própria trilha sonora. Então sabia que ela vinha.

Nesse caso específico não era difícil. Ela é tão “estabanada” que não há como ignorar que ela se move: abrira a porta com tanta imprudência que o enfeite moveu-se no ar como um sino; encontrara com o sofá pelos pés de forma definitivamente não agradável para ela, mas que rendeu um riso quando ouvi o grito e quase caira num degrau traiçoeiro entre a copa e a cozinha. Afinal, ela nunca fora mulher de passar despercebido por onde ia.

Então sabíamos da presença um do outro “Cê tá bem rindo de mim, né?”, envolvendo os braços por baixo dos meus como quem tenta me guardar, mas percebendo que seu tamanho não permite pousa a cabeça na minha costa parando o o movimento do relógio.

Era um abraço que trazia prazer e segurança. Desses “é aqui que eu quero estar”, que exigia uma retribuição: um beijo, um outro abraço apertado ou um simples “Bom-dia” sincero. Aquelas melosidades que só o início de um dia nos proporcionam.

Mas nada disso aconteceu. O mínimo tempo de esticar as mãos à torneira foi o suficiente para que ela saqueasse meu maior tesouro com insolência tamanha, pois sabia que não teria como revidar.

“Dê dinheiro, mas não dê intimidade” – os velhos sempre nos dizem e era isto que me ocorria enquanto a observava: ela sentara no terceiro ou quatro degrau da escada que ficava ao lado do fogão. Sentada, dispensava o olhar mais penetrante que possuía pelo fresta entre a caneca e umas mechas de cabelo mal ajeitadas.

Ali era só poesia. Seu olhar sarcástico contrastava com aquele sorriso tímido e com as roupas de dormir, a qual não ia muito além de uma camisa minha antiga. A pele alva confrontava a madeira escura da escada. E o conjunto todo rimava com aquela personalidade que não precisava de esforço para me incitar.

“Vai ficar aí me olhando? A comida vai queimar” – Estava cético quanto a sua capacidade de me deixar bobo. Para mim que detinha certa habilidade com palavras, encontrar alguém que me tanto deixasse sem elas não era coisa para lastimar-se, mas sim para aproveitar segundos raros de mudez.

Logicamente os repertórios de implicância mútuas se esgotaram e uma verdadeira conversa nasceu: começa sempre com aquele tímido “você dormiu bem? e daí nascem comentários sobre um filme, uma música, um livro ou uma novela qualquer que me faça esquecer que o tempo é finito. É incrível a capacidade que tenho de me perder nela.

Tão logo já pegava sua mão como um convite a me acompanhar. Um com os pratos e talheres o outro com a comida e a garrafa esquecida na geladeira. Era visível o brilho nos olhos que tinha, brilho este que dizia “Tu me conheces, né?” – “Tinha certeza que gostaria de uma taça para acompanhar. Vamos pra varanda hoje.” – mostrando que também podia ler seus pensamentos.

A beleza na refeição não foi a comida, mas a simplicidade unida ao conto de fadas que um dia criamos: A frente, sete tons de azul do mar até linha tênue onde Gaia se encontra com Urano; a baixo o som de onde se chocando com rocha; aqui, o local que um dia planejamos sem nem saber.

A liberdade de estar em casa em um final de semana é o que mantém esses momentos. Duramos a comida até que estivesse fria, enrolamos o vinho até que estivesse à temperatura ambiente e nos recusamos a sair do bem-estar que aquele sofá ao lado da mesa oferecia, nem mesmo para limpar as louças. Ali a tarde durou

E, parece que na tentativa de compensar as vezes que ela fez o tempo parar, o relógio correu pelo nosso momento para trazer a noite. No céu escuro, ressignifiquei a cena (final) mais bonita de Notting Hill; e apreciando aqueles par de olhos de quem namora o luar entendi na prática o que aprendi na mais fina filosofia: o instante, que por definição é único, que se ama é aquele singular em que não se preferiria estar em lugar ou tempo outro que não esse em questão.

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