Líbero

Por nenhum decréscimo acontecer quando uma boa música acaricia teus ouvidos: 5 a seco – Pra você dar o nome

Já passava um pouco do horário da sesta. O relógio marcava algo entre 14h e 15h; não sei dizer o certo, estava ansioso demais para puxar o celular e correr o risco de ler alguma notificação tua dizendo que não poderia vir.
Marquei de te encontrar nessa panificadora perto da sua casa. Por motivos os quais nunca entendi, sempre tive um carinho por essa padoca; embora não tivesse o costume de frequentá-la com alguma assiduidade; e por isso quis ir para lá. Ultimamente estou com pouquíssimo dinheiro para gastar em coisas alheias aos estudos: encontrei a “carreira” dos meus sonhos e não tive pena de investir nessa chance.
Mas não seria este meu contexto que me impediria. Queria muito te encontrar, trocar as experiências que vivemos enquanto deixamos de nos falar, dividir algumas xícaras de café e mostrar como a simplicidade dos detalhes ainda é parte predominante em mim. E nada mais simples do que essa padaria com um cafezinho da tarde numa ótima vista do outro lado da rua de uma das mais imponentes igrejas que já conheci.
Estava deveras inquieto, assumo com relutância nenhuma. Os últimos mililitros das minhas férias estão escorrendo. Isso me deixou pensando nos meus desejos para os tempos vindouros e, por conta de toda essa reflexão percebi como crescia a vontade de te perguntar “Como você tá?”, saber o que um ano fez com aquela pessoa que gostei tanto de conhecer. E, sempre naquela máxima meditativa, não suprimi nem incentivei nada; apenas deixei que minha própria mente divagasse por onde achasse melhor para depois eu colher os frutos que estivessem bons. Colhi; assim, este e aos poucos trouxe do fundo do baú umas palavras entre nós.
Na tempestade dos pensamentos pratiquei o hábito: levantei, comprei o primeiro café e, já sentado, abri meu diário para buscar a calmaria. Escrevi sem rumo nem direção, só com a intenção de reencontrar a minha presença no agora.
Nesse gracejo perdi mais ainda a noção do tempo e do espaço, só me encontrando de novo na base do susto: uma mão se estendeu por cima do meu caderno e uma voz característica me disse: “Será que alguma dia cê me deixará ler o que tanto escreve aí?”. Levantei o rosto imediatamente. Só podia ser ela, obviamente, mas ainda fui pego de surpresa e não consegui de imediato responder. Foram alguns segundos te admirando e mais outros gaguejando num jeito que oscilava entre fofo e humilhante, diriam algumas amigas.
Só nesse momento o dia finalmente começou para mim. Entretanto cafés, pontuávamos alguns livros que açoitaram nossos âmagos, comentávamos filmes que nos comoveram, narrávamos histórias que julgávamos interessar ao outro, trazíamos músicas para o foco esperando que um dueto amador iniciasse… Foram tantas pautas que em minutos não tinha mais nervosismo em mim e, para te ser sincero, não me parecia que a intimidade entre nós havia sido perdida no tempo.
Estava outra vez nos teus braços, embora não literalmente nesta ocasião, e a tarde foi passando em deleite. Desaprendi coisas como telefone, calor, mundo exterior, inseguranças e receios. Junto com o brilho do sol, todo resto foi apagando-se enquanto eu reaprendia os trejeitos da tua voz, as entonações, intensificações, suavidades e outras artimanhas que sempre usaste para reforçar sonoramente teus sentimentos.
Passo a passo de um livro que ardo/ardei para decifrar, um livro que depois de iniciado não dá vontade de parar. É sempre uma voracidade de estar no raio de influência dele. E nesse ímpeto não queria largar o momento, apesar de que o azul escuro houvesse começado a tomar o lugar do celeste no céu. Por isso o convite: “Daqui a 30min vai estrear um romance polonês maravilhoso no melhor e menos conhecido cinema da cidade. Topa? Dá para ir andando daqui. O que me dizes?”
Para a minha alegria, não demorou que estivéssemos com as coisas na mochila e a conversa rolando na caminhada. Bem ao meu estilo, sabe? Cabelos ao vento, caminhar cambaleante e espontaneidade elevada. Um momento tão ordinário que era como estar em casa: não havia outro lugar onde eu quisesse estar. Muito mais quando te puxei para atravessar a rua e, daí em diante, minha mão permaneceu unida a tua; uma junção tímida de dois ou três dedos que faziam questão de estarem juntos, sempre procurando o rearranjo quando a mão do outro escapava; um pequeno acordo que nem ousara ser verbal, mas foi honrado até a despedida.
Partida essa que ainda não sabia se era momentânea ou perene, mas que procedeu o filme. Este, por sua vez, foi quase muito bem escolhido, haja vista que eu já havia assistido uma vez teria a chance de desviar o olhar para te observar durante um momento ou outro sem correr o risco de me perder na trama para me perder nos sorrisos que me dispensavas quando percebias a admiração.
E assim, foi premeditado o último momento significativo. Já estávamos na sala. Lado a lado, mão com mão e silêncio como bem espera-se dos espectadores. Um último par de sorrisos foi trocado quando tomei coragem e encostei meus lábios no teu rosto. As iluminação cedeu e a partir disto nada mais importava. A película começou…

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