Orgânico e involuntário


Antes de iniciar a leitura prepare sua playlist com as músicas que selecionei como trilha sonora para o texto:



The Paper Kites – Paint
&
The Revivalists – Soul Fight.  

Já feito, pode começar a leitura em paz.

É final da tarde e hoje o cinza no céu prevaleceu: “que dia lindo, né?”, me perguntarias. A chuva foi perene e, assim como a saudade, hora veio num toró, hora numa leve garoa para adocicar meu âmago. Lentamente o som da chuva fina mesclada com aquele som meio psicodélico daquela banda que tanto gosto me despertou da sesta característica das férias de início de ano.

Logo reconheci esse misto de sensações que tanto me apraz. Por isso um sorriso bobo, singular da felicidade que “é”, formou-se no rosto antes mesmo dos olhos se abrirem. Me espreguicei tateando a cama de solteiro onde estava com tanta cautela que até parecia uma ultra-mega-blaster-kingsize. Só encontrei um saco de penas envolto num tecido frio onde queria achar uma pele macia para trocar calor. Sem outra opção imediata, desejei um café. Preto, forte, fumegante e sem açúcar. Daquele que infesta o ambiente com um odor singular (porque  o verdadeiro amante de café reconhece o amargo pelo cheiro), que não aquece só o corpo, mas também a alma; daquele que rende boas lembranças, daquele jeito que tu sabes que amo…

Finalmente; então, abri os olhos. Me espreguicei de verdade e sentei na cama. Já fui pegando o celular e checando as notificações (carência é foda), mas nada encontrei além das horas e um aviso de que o despertador tocou e não escutei. Antes do café, um último olhar em volta: mais de um ano se passou desde a última vez que conversamos e algumas coisas mudaram no meu quarto. Não sei ao certo como era naquela época, mas hoje coloquei os livros pra fora do armário de forma que o ambiente ficasse mais alegre com eles à vista, enchi a parede com post-it’s de pensamentos soltos num jeito que deixou mais evidente ainda que dois anos de Física me deixaram sequelas, cadernos espalhados por tudo quanto é superfície para te lembrar que apesar da modernidade ainda opto por usar papel e caneta para escrever. É até provável que escondido por um desses eu encontre aquela carta que escrevi para ano passado. Quando bate aquela saudade, carta esta que até hoje tem o título de minha melhor produção textual, diga-se de passagem, que leva nome em homenagem àquela música do Rubel que gosto até hoje.

“Bora, te levanta, já estás enrolando demais” e num supetão estava de pé. “Porra, esse chão está congelando” – a voz continuava a gritar na minha cabeça. Pensei em buscar um chinelo, mas preferi os pés descalços porque me traziam uma lembrança boba sobre “odiar sandálias em casa”, mas que concordava veementemente. No som, Paint substituiu Another Brick In The Wall que já ia pela metade, pois fui doutrinado que não há música melhor para acompanhar a chuva do que as do The Paper Kites. E lá estava: caminhando até a cozinha.

No caminho optei um café na prensa francesa ao coador, ansiava por esse cheiro forte e espesso que só ela pode criar. Nessa tarde minha mente divagou tanto que só esse nome da cafeteira me transportou para uma conversa que tivemos: dizias o quão “sonho” seria alguém planejar uma viagem a Paris só para te pedir em casamento e eu ria dessa tua idealização falando que era clichê demais para ser legal. Foi uma discussão que não teve conclusão. Duas crenças sendo postas à prova nunca levou ninguém a mudar de pensamento – “Isso pelo menos, não mudou no meu lado”.

O café ficou pronto, para acalentar o viciado, e em menos de minuto estava encostado na parede do quarto enquanto a mente vadiava pelas boas memórias. Momentos legais, memoráveis nos mínimos detalhes apesar de tão simples, mas essenciais para os que são sinceros consigo mesmos. Em menos tempo ainda me surpreendi por estar lembrando de quando te “raptei” para passar a tarde comigo, do nosso primeiro beijo (quando lembro até das roupas que usavas para minha própria surpresa), da saída que fizeste birra porque eu estava de calça enquanto tu estavas jogada (lembro também que só te deixei trocar de roupa porque estavas com uma camisa do Flamengo), das nossas chamadas que duravam horas quando estávamos separados por mais de 2.500 Km; da vez que soltei o primeiro “eu te amo” (antes mesmo do primeiro beijo), desliguei a internet e peguei o avião para te encontrar… São numerosos apesar do pouco tempo que passamos juntos. Agradeço bastante ao Cérebro por “me proteger” mantendo as lembranças felizes no primeiro plano. Hoje vejo agradeço a diferença que isso faz.

“Ei, acorda, garoto. Vai passar o dia inteiro olhando para o nada? Teu café vai esfriar”. Sempre que me pego pensando nessas coisas sinto falta daquele livro que te dei: O Velho e O Mar. Era e ainda é meu favorito, mas não me arrependi em nenhum momento de ter te presenteado com ele. Se gostaste tanto dele como aquelas fotos mostravam, entção fez sentido para o universo que o livro passasse para tua guarda.

“Falando nisso, será que aquelas fotos ainda estão no teu instagram? Que mal faz se embriagar de nostalgia com uma stalkeada? – Ah, as fotos ainda estão aqui. Lindas e alegres como na primeira vez que meus olhos esbarraram nelas. Uma pequena saudade brotou: dela ou do livro, não sei, mas aqui estou como o Velho: ‘Essa é a história de um homem na solidão do alto-mar, com seus sonhos e pensamentos, com sua luta pela sobrevivência, com sua inabalável confiança na vida.’ – vagueando no final da tarde como o Velho que vagueia a mente enquanto o corpo labuta.”

Engraçado isso. Felicidade sincera me inundou sem motivo algum além das lembranças. Consequência da leveza do ser que desenvolvi nesse ano que passou. Pensando bem, acho que ela até gostaria de dividir um café e algumas conversas com esse rapaz que hoje aceita muito mais os conselhos de vida do Fred Elboni do que aceitava o estilo de vida do F. Nietzche um ano atrás – Uma salva de palmas para a levez e um profundo “grato”, pois tudo começou lá atrás com ela.

Mais um estalo e acordei a última vez para a vida. O azul escuro tomou o céu, enquanto algumas estrelas pontuavam a paisagem da minha janela. Era hora de começar a ser útil para a humanidade. O aleatório já havia colocado Soulfight para tocar. O último sinal do cosmo: “É teu momento, Armando. Deleitaste a tarde lisonjeando com boas lembranças dela. Agora, escreve. Põe em palavras tudo o que pensaste involuntariamente, tudo que te foi orgânico no final desse dia, tudo que te foi ‘Natural’ “.

E esse foi o relato de como me acomodei, servido de outra xícara de café, e comecei a compor: “É final da tarde e hoje o cinza no céu prevaleceu: ‘que dia lindo, né?’…



P. S.: Para que aproveites o texto ao máximo, como eu mesmo fiz, tens que ler um outro no mesmo estilo. Esse outro foi uma pequena “fantasia” que tive uma vez e que uma amiga se deu a tarefa de me acaricar com a gravura dela em palavras. Se for do teu interesse: Natural

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s